Loucos pelo Baião, loucos por Luiz Gonzaga

Sou totalmente apaixonada pelos ritmos brasileiros! O Brasil é tão grande, mas tão grande, que fica difícil conseguir acompanhar todos os movimentos culturais que rolam por aí.

Numa dessas conheci o Baião, junto com ele, o Luiz Gonzaga. Bacana pensar que um dos maiores cantores do país tenha tanto a ver com o gênero. Os dois nordestinos, nascidos da seca e da privação, ganham reconhecimento pela necessidade de espaço.

O Baião não seria o mesmo sem Luiz Gonzaga. Gonzaga, por sua vez, não seria quem é sem o Baião.

Por isso, vamos falar um pouco sobre a história de cada um e seus cruzamentos.

Origem

O gênero teve origem na Moda de viola, Lundu e Chula. O Baião é a coreografia que se desenvolve ao mesmo tempo em que se canta o som do ritmo, popular especialmente no Nordeste brasileiro. O ritmo originário mais presente é o Lundu, nascido dos batuques nos atabaques africanos, produzidos pelas pessoas escravizadas, trazidas à força para o Brasil.

A princípio ele era conhecido como “Baiano”, proveniente do verbo “baiar”, que popularmente se referia à ‘bailar’. Essa sonoridade foi gerada pela fala local, já que a dança é uma mistura de três culturas: a dos negros trazidos, a da moda caipira de viola e a da Chula, dança praticada nos espaços mais urbanos. O Baião é, portanto, uma síntese de três culturas muito exercitadas ao longo do século XIX.

Luiz Gonzaga do Nascimento nasceu em dezembro de 1912, numa casa de barro batido na Fazenda Caiçara, no povoado do Araripe, estado de Pernambuco. Foi o segundo filho de Ana Batista de Jesus Gonzaga, filha de um casal descendente de escravos livres, conhecida na região por ‘Mãe Santana’, e oitavo filho de Januário José dos Santos do Nascimento, que trabalhava na roça, num latifúndio, e nas horas vagas tocava acordeão. Foi com ele que Luiz aprendeu a tocar.   

Deveria ter o mesmo nome do pai, mas na madrugada em que nasceu, seu pai foi para o terreiro da casa, viu uma estrela cadente muito luminosa e mudou de ideia. O nome escolhido, “Luiz”, foi dado em homenagem à Santa Luzia, à estrela cadente e ao Natal. Esse nome tem tudo a ver com a época que nascera e quer dizer brilho, luz.

 

Ascensão

Luiz Gonzaga deixa o Exército e vai para o Rio de Janeiro, onde canta em bares e programas de calouros. Participa de um programa da Rádio Tupi, ganhando o primeiro lugar com a música “Vira e Mexe”.

Tocando como sanfoneiro da dupla Genésio Arruda e Januário, é descoberto e levado pela gravadora RCA Vitor, com a qual grava seu primeiro disco. O sucesso foi rápido, vários outros discos foram gravados, mas só em 11 de abril de 1945, grava seu primeiro disco como sanfoneiro e cantor com a música “Dança Mariquinha”. No mesmo ano nasce seu filho, Gonzaguinha, e conhece seu parceiro, Humberto Teixeira.

Dezesseis anos depois, Luiz Gonzaga retorna da sua cidade natal e vai para o Recife, onde faz apresentações em vários programas de rádio. Em 1947 grava “Asa Branca”, feita em parceria com Humberto Teixeira.

Na década de 40, especialmente depois de 1946, o Baião ganhou novo impulso com a intervenção do genial sanfonista e compositor Luiz Gonzaga. Seria o “Baião de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira”. Gonzaga logo passou a dominar o gosto popular com outros sucessos no estilo do Baião, a ponto de jornais registrarem que o ritmo tornara-se a “coqueluche nacional de 1949”, segundo uma revista da época, a Radar.

A partir da década de 1950, o gênero passou a ser gravado por diversos outros artistas, dentre os quais podemos citar Marlene, Emilinha Borba, Ivon Curi, Carolina Cardoso de Menezes, Carmem Miranda, Isaura Garcia, Ademilde Fonseca, Dircinha Batista, Jamelão, entre outros.

Luiz Gonzaga passou a ser reconhecido como o “Rei do Baião”. O principal instrumento a acompanhar o ritmo é a sanfona, muitas vezes complementada pelo agogô e o triângulo. Com o passar do tempo, tornou-se habitual o uso de uma orquestra.

 

Curiosidades

– No Sul do país o Baião teve pequenas modificações. Enquanto no Nordeste aquele que dança indica seu substituto na coreografia com uma “umbigada” (unindo um umbigo ao outro e mesclando entre batidas), no Sul, o dançarino escolhe outra pessoa estalando os dedos, simulando o toque de uma castanhola, graças às heranças espanholas provenientes da proximidade com os países Uruguai e Paraguai.

– Por que Luiz não recebeu o sobrenome da família, Januário dos Santos, como se chamaram os oito irmãos e irmãs dele? NINGUÉM SABE ATÉ HOJE!

– Os artistas do Baião mais conhecidos eram Carmélia Alves, tida como a “Rainha”, Claudete Soares, a “princesa” e Luiz Vieira, o “príncipe”.

– Gonzaga participou durante três meses de um grupo de escoteiros em Exu e foi ali que ele aprendeu a ler e escrever. Como precisava ajudar os pais na roça, teve que voltar para casa.

No início, toda festa que tinha música e dança era conhecida como Baião. Vieram daí as expressões: “Hoje tem Baião” ou “onde será o Baião?”, demonstrando a grande influência que o ritmo tem na cultura nordestina.

– Gonzaga foi o primeiro a fazer uma turnê pelo Brasil. Antes dele, os artistas não saiam do eixo Rio-SP. Ele gostava mesmo do showbiz: viajar, fazer shows e tocar para plateias do interior.

 

Herança

Após a morte de Gonzaga, o Baião ressurgiu no final da década de 70, graças ao resgate promovido por músicos como Dominguinhos, Zito Borborema, João do Vale, Quinteto Violado, entre outros.

O ritmo influenciou ainda a Tropicália de Gilberto Gil e o Rock’n Roll de outro baiano, Raul Seixas. Esse último fundiu os dois ritmos, criando aquilo que chamou de “Baioque”.

Em 2012, Luiz Gonzaga foi tema do Carnaval da Unidos da Tijuca, no Rio de Janeiro, com o enredo “O Dia em Que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão”, fazendo com que a escola ganhasse naquele ano.

Ana Krepp, da Revista da Cultura, escreveu: “O rei do Baião pode ser também considerado o primeiro rei do Pop no Brasil. Pop, aqui, empregado em seu sentido original, de popular.” De 1946 a 1955 foi o artista que mais vendeu discos no Brasil, somando quase 200 gravados e mais de 80 milhões de cópias vendidas.

“Comparo Gonzagão a Michael Jackson. Ele desenhava as próprias roupas e inventava os passos que fazia no palco com os músicos”, ilustra Breno Silveira, diretor do filme “Gonzaga – De pai para filho”.

 

 

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Um abraço! 😉

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