Quatro peculiaridades analisadas em quatro filmes de Quentin Tarantino

Quem nunca teve desejos (inconscientes) de matar alguém, dirigir com velocidade máxima em uma rodovia, ou desobedecer qualquer coisa que se estabeleça por leis ou padrões, que atire a primeira pedra. Pode ficar calmo, caro leitor, o motivo dessa revolta é a inspiração (depois de uma imersão de algumas horas) proveniente do estilo de filmes do diretor mais violento e inovador do pedaço: Quentin Tarantino.

Tarantino nasceu em 1963, em Knoxville- Tennessee,em 1985 começou a trabalhar em uma loja de vídeos (hoje em dias as videolocadoras são um artigo raro) em Los Angeles, e de repente se viu cercado de influências (spam hirto western ,blackpoitation) sempre utilizadas em seus filmes. Como nunca estudou cinema, sua educação para a sétima arte foi resultado desse trabalho e de um olhar curioso e atento.

Já realizou 21 projetos como produtor, 22 como roteirista e 35 projetos como ator, além de ter dirigido os seus excêntricos longas-metragens. O gosto exótico e peculiar do diretor é bem perceptível, assim, essa lista busca destacar os traços singulares que só Tarantino tem, em quatro produções diferentes.

  1. Kill Bill (volume 1 – 2003): 62 mortes

Referências: as referências usadas em Kill Bill tem como fonte os filmes de Kung fu, mangás (o filme é inspirado no mangá Lady Snowblood), e os westerns spaghetti italianos (anos 60/70).

Lady Snowblood  é a manga escrita por Kazuo Koike com ilustrações de Kazuo Kamimura. A história de vingança, conta sobre a vida de uma mulher (personagem que titulou o quadrinho), e Yuki, uma assassina que jurou vingança contra os homens que violaram a sua mãe- Lady Snowblood- e mataram o seu pai.

mangá

O figurino também conversa o tempo todo com a bagagem que Tarantino carrega, assim, a roupa de Beatrix Kiddo tem como fonte referencial a que foi utilizada por Bruce Lee no filme: “O jogo da morte”.

figurino kill bill

“Pés” para que te quero: Tarantino possui uma grande fixação por pés, é por isso que a cena em que Uma Thurman se esforça para mover seu dedão do pé (depois de sair de um coma) dentro da sua caminhonete amarela “Pussy Wagon”, assegura essa simpatia peculiar que o diretor tem.

Fotografia/Arte: o filme conta com trocas de cenas entre: uma paleta de cores quentes (amarelo,marrom,vermelho), para momentos em preto e branco (na briga com os 88 malucos). Trazendo, mais uma vez, o aspecto de história em quadrinhos para o filme.

Trilha Sonora: a trilha sonora é daquelas que se a gente escuta em algum lugar, tempos depois de ter visto Kill Bill, se lembra do filme. O mais legal é que as músicas conversam com as cenas, Bang Bang my baby shot me down, praticamente narra o que vai acontecer instantes depois; um outro momento em que a trilha é genial  é na caminhada da rival – California Mountain Snake- que entra ao som de Twisted Nerve, de Bernard Hermann (esse assovio não sai da cabeça por uns tempos).

 

2. Cães de Aluguel (1992): 11 mortes

Inspirações: o filme foi inspirado por clássicos como The Pope of Greenwich VillageStuart RosenbergThe Taking of Pelham 1,2,3Walter Matthau e The Killing, um filme de Stanley Kubrick.

Referência POP: há um diálogo inicial onde é feita, quase uma análise semiótica, da letra da música Like a Virgin– de Madonna, que ocupa à introdução. É tudo muito paradoxal, já que ouvir gangsters debatendo sobre comportamentos humanos e um pouco da cultura pop, é um tanto quanto peculiar.

Elenco (!!!): o elenco é, em sua maioria, masculino. Contando com grandes nomes, como: Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Chris Penn, Steve Buscemi,Edward Bunker e o próprio Quentin Tarantino. Todos são representados por cores – inspiração do filme “The taking of Pelham one two three”, 1974:

caes de aluguel

Michael Madsen (Mr. Blonde), Edward Bunker (Mr. Blue), Harvey Keitel (Mr. White), Tim Roth (Mr. Orange), Steve Buscemi (Mr. Pink), Quentin Tarantino (Mr. Brown).

Estruturas Artísticas: locação é praticamente única durante todo o filme, o galpão escolhido para abrigar os criminosos aumenta ainda mais a sensação de desconforto e realismo sentida por quem vê. A fotografia é de Andrzej Sekula, que adota um visual granulado e uma paleta de cores apáticas e sem vida, em contrapartida, Sekula dá mais relevância aos tons de vermelho, aumentando os contrastes e enfatizando as cenas de violência com muito sangue. O mais curioso sobre o roteiro é que, apenas os eventos anteriores e posteriores ao assalto são mostrados, mas o roubo em si não aparece – destacando as nuances do filme e ampliando o enredo, possibilitando as “brincadeiras” do diretor entre “um relógio em tempo real, em oposição ao relógio do filme”.

locacao caes de aluguel

3. Pulp Fiction (1994): 7 mortes

Participação mais que especial: que Tarantino adora fazer incursões como ator em seus filmes, todos nós sabemos. Mas a escolha de seu personagem em Pulp Fiction – que ficou entre Jimmie (dono da casa para onde Vincent Vega e Jules Winnfield levam o cadáver) e Lance (o traficante que vendia drogas a Vincent)- se deu, quando o diretor opta por estar atrás das câmeras no momento da overdose de Mia; atuando como Jimmie.

Melhores frases de efeito: os diálogos do filme são realmente únicos, desde a conversa de Vincent e Jules dentro do carro às palavras recitadas por Samuel L. Jackson- uma passagem de Ezequiel 25:17  que realmente existe, mas só tem algumas frases em comum com a versão dita por Jules antes de matar Brett em seu apartamento.

Tarantino e suas criações publicitárias: a falta de gosto pelo merchandising fez com que o diretor criasse as próprias marcas que aparecem no filme: na cena onde Jules dá uma mordida em seu  hambúrguer Big Kahuna e, quando Mia fuma seu cigarro Red Apple, estão na verdade experimentando mais um pouco da criatividade de Quentin.

Metalinguagem: há uma teoria que afirma que alguns filmes de Quentin Tarantino são interligados e conversam como uma única história. O sanduíche e o cigarro são dois desses elementos em comum: Mr. Blonde (Michael Madsen) também come um lanche após o roubo dar errado em Cães de Aluguel; Seth Gecko (George Clooney) leva comida para ele e o irmão em Um Drink no Inferno, diretamente do Big Kahuna; além disso, o cigarro Red Apple também é fumado por Uma Thurman em Kill Bill. A gente deve se lembrar, também, do fato de Mia começar a contar, durante um jantar, sobre o piloto que fez uma série sobre mulheres agentes secretas: Fox Force Five – uma loira (que era a líder), uma chinesa (mestre em kung-fu), uma negra, uma francesa e ela própria, uma letal especialista de facas – descrevendo as cinco mulheres do Esquadrão Assassino Víboras Mortais, de Kill Bill (volume 1).

 

4. Bastardos Inglórios (2009): 396 mortes

Cena 1: o filme logo se inicia com uma cena bastante indigesta (mas dessa vez, não pela quantidade de sangue). As escolhas não são aleatórias: quando os judeus são massacrados no porão da casa, não há sangue; não há som de gritos; não há barulho de nada além do som da madeira sendo atingida e da trilha sonora- conferindo à personalidade de Landa características como frieza e autoritarismo.

Três: o major Hellstrom (August Diehl), se convida para sentar à mesa do tenente Archie Hicox (Michael Fassbender) e de Bridget von Hammersmarck (Diane Kruger), ao suspeitar do sotaque do tenente. Todos eles “pisando em ovos”, seguem com um jogo (que funciona como uma adivinhação de personagens a partir de cartas escritas na hora por cada um), até que, um pedido de três copos de whisky especial, faz com que o personagem de Fassbender estrague o disfarce, seguindo o gesto britânico (sem usar o dedão para fazer o número 3- como os alemães realmente fazem).

Coincidências… ou não, não mesmo: Tarantino “brinca” com as câmeras na cena em que Landa encontra Shoshanna pela primeira vez (desde o ocorrido na casa), focando no rosto da dona do cinema sem mostrar o recém-chegado, assim nós somos colocados no mesmo patamar de Shoshanna – compartilhando de seu medo e sua apreensão diante do pedido de leite do coronel (fazendo com que a tensão só cresça durante a cena, pois logo pensamos que ele a reconheceu).

Ironias do destino: no fim, depois de toda a atuação dos Bastardos Inglórios, os alemães morreriam apenas pelo plano de uma judia, sem qualquer necessidade de existirem os Bastardos. A guerra acaba graças à uma sobrevivente de toda a loucura dos alemães… mas as ironias não param por aí, já que, Hans Landa sobrevive, sai ileso, e a única vingança que Shoshana consegue é feita por Brad Pitt que marca Hans para sempre com a suástica na testa, na cena final. Nessa cena, o enquadramento de Aldo Raine, que acaba de esculpir a testa do coronel Landa, é feito de baixo- o que nos coloca em uma posição de inferioridade, quase como se assumíssemos o papel do alemão (contra-plongée).

 

Produções que Tarantino dirigiu:

1992- Cães de Aluguel

1994- Pulp Fiction: Tempo de Violência

1995- Grande Hotel

1997- Jackie Brown

2003- Kill Bill / volume 1

2004- Kill Bill/ volume 2

2005- Sin City: A cidade do Pecado

2007- À Prova da morte

2009- Bastardo Inglórios

2012- Django Livre

2015- Os oito Odiados

 

 

 

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