Retrospectiva e crítica: Black Mirror continua muito Black Mirror?

“Se tecnologia é uma droga — e parece ser uma droga — então quais são, precisamente, os efeitos colaterais?” Esta área entre prazer e desconforto é onde Black Mirror, minha nova série dramática, se passa. O “espelho negro” da abertura é o espelho que você encontrará em cada parede, em cada mesa, na palma de cada mão: a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor, de um smartphone”. – palavritas do senhor Charlie Brooker, criador de Black Mirror.

A verdade é que esperamos um tempinho bom pela volta da nossa Black Mirror. E cara… É BLACK MIRROR! Uma daquelas séries fora da casinha que não se encontra sempre, e a expectativa é claro que fica nas alturas. Simbora analisar os novos e tão aguardados episódios?

Não sei se tem spoiler… ah tem um cadinho sim!

RETROSPECTIVA MIRROR BLACK

Primeiro vamos dar uns passeios nas temporadas anteriores pra deixar claro os critérios pra crítica dessa fãzona que vos fala. Lembrando que ~teoricamente~ Black Mirror pode ser assistido em qualquer ordem.

A primeira temporada conta com 3 episódios que abordam obsessão pela mídia (“The National Anthem”), o famoso “episódio do porco”, considerado um dos mais polêmicos da série. Depois Brooker traz as complexidades e injustiças de sistemas sociais (“Fifteen Million Merits”), abusando da tecnologia pra fazer a crítica. E por último um tema recorrente na série, a privacidade (“The Entire History of You”), esse um dos meus episódios preferidos de toda a série, que começa a tratar da memória e da consciência digital.

A segunda temporada conta com mais 3 histórias. A primeira pode ser considerada bem bizarra e trata da forma que podemos lidar com a perda (“Be Right Back”), inserindo um android absolutamente real, destaque para os atores do episódio. E então vemos um reality show inacreditável e cruel acontecendo (“White Bear”), é daqueles episódios de fuga que deixa a gente nervoso do início ao fim. O que falar do episódio do Waldo? Que mistura crítica política, alienação e tecnologia? A gente sente que poderia ver acontecendo nas próximas eleições, facilmente. (“The Waldo Moment”).

O episódio especial de natal exibido em 2014 pra mim talvez seja um dos melhores da série. “White Christmas” é altamente tecnológico, mas isso é só uma parte muito bacana da coisa. É que a trama trata o comportamento humano de maneira genial, trazendo nuances de personalidades diferentes em convivência e claro, a tecnologia traz o charme do episódio. Já pensou bloquear uma pessoa na vida real e proibir ela de interagir com você com um simples click? Ou então sentir que passou anos e anos presa sendo que só se passou um minuto? Assistam esse hino.

A terceira temporada já foi diretamente encomendada pela Netflix e contou com SEIS episódios pra alegria geral das nações!
E ela já começa tão Black Mirror como poderia ser com um episódio que mostra como nos importamos com o que pensam de nós, com aparências e status. Já pensou se cada bom dia que você desse pra alguém fosse avaliado por um sistema de pontos que te impede até de comprar uma casa ou entrar em um restaurante? Pois é, esse é o genialmente possível episódio “Nosedive” que abre a season 3.

E Black Mirror entrou mais uma vez no mundo dos games, dessa vez com realidade simulada assustadora; retratando como nossas rotinas muitas vezes nos fazem querer fugir da realidade. “Playtest” é um dos episódios com mais plot twists e sustos da série, prepare a pipoca.

Já falamos de privacidade? Olha que já, mas não desse jeito. Black Mirror não é de repetir e traz pra gente o mesmo tema com uma roupagem 200% diferente. O que você é capaz de fazer pra manter seus atos vergonhosos em segredo? “Shut Up and Dance” é o episódio que acompanhamos alguns personagens sendo chantageados e cumprindo exigências pra manter seus crimes enterrados. Outro com um final que te deixa desnorteado.

Vamo falar de uma raridade em Black Mirror: final feliz – ou quase! Esse é um episódio que trata de consciência digital, como se nosso cérebro pudesse estar na “nuvem” que simula outra realidade e lá pudéssemos viver e pior (ou melhor) ficarmos após morrer, como férias eternas. “San Junipero” é o querido e premiado episódio que traz uma história de amor e ao mesmo tempo uma reflexão pesadíssima sobre nossas escolhas ao longo da vida.

Claro que a tecnologia encontra terras militares e quando ela encontra… desastre, lógico! Futurismo em um nível que os soldados têm chips implantados pra viver em realidade aumentada e alerta pra salvar a população de… bem, ameaças. “Men Against Fire” é mais um episódio que causa arrepios pra lista.

Colocaram até as hashtags pra jogo em um episódio que poderia acontecer semana que vem. Já pensou em minidrones assassinos ligados a tópicos do Twitter? Nem eu e cruz credo, mas Charlie Brooker pensou em “Hated in the Nation”.

 

TODAY OR TOMORROW?

Um ano e pencas depois, a quarta temporada já chega com uma assinatura: vocês já sabem do que a série se trata, a gente não precisa mais explicar. Pelo menos foi o que eu senti, tudo mais direto e menos preparativo. Muita gente reclamou que caiu o nível, mas ao olharmos a retrospectiva vamos perceber que todas as temporadas têm episódios geniais e também aqueles meia boca. Vamos a eles!

Começamos com um tributo a Star Trek que dividiu opiniões. Confesso que não assisti a saga e conheço pouco, então não vou comentar em relação à homenagem em si.
Em geral, a crítica é mais uma vez à fuga da realidade e ao nosso caráter. Na internet podemos ser quem quisermos, nos escondemos atrás de avatares, fotos de perfil e falamos qualquer coisa. O episódio “USS Callister” leva isso a um novo nível quando lida com a possibilidade de “sequestrar” a consciência de pessoas através de dna e usar a realidade virtual como válvula de escape sem regras ou limites morais.

Não deixa de ser um pouco óbvio que mães e pais gostam de controlar pelo menos um pouco senão muito a vida dos filhos. Imagina se sua mãe implantasse um chip em você e pudesse ver tudo que você? Pudesse escolher por você o que ver e o que ignorar? Participar dos seus momentos mais individuais?. Claro que o resultado tende a ser terrível em algum momento, é o que vemos em “Arkangel”, um episódio interessante, mas bastante previsível.

“Crocodile” ataca nossa noção ética e como ela pode se distorcer quando é nossa sobrevivência que está em jogo. Esse episódio é um thriller psicológico que te joga em uma sinuca de bico, porque você sente dó da protagonista e ao mesmo tempo a vê cometer atos horríveis. A jornada da protagonista se passa paralelamente a de uma cientista que utiliza um aparelho capaz de exibir memórias. Familiar?

Se quiser falar de amor… hehehe Brincadeiras à parte, até Black Mirror aderiu ao Tinder e eu não. Pois é, em tempos de aplicativos de namoro, mais uma vez a série salta 10 passos. Se você soubesse a data de validade do seu relacionamento, sequer começaria ele? “Hang the DJ’ é sobre como aproveitamos com pessoas erradas até achar a certa, só que claro, do jeito distorcido e distópico da coisa. O aplicativo da série te prende a essa vida e não se preocupa com a profundidade da conexão que você estabelece com a pessoa. Lógica deles? Desconheço. Mas sei que eles prometem encontrar sua metade da laranja por você. Eu gostei demais do roteiro, dos atores e até do desfecho.

Quando eu assisti “Metalhead” me senti um pouco lerda e confesso que pela primeira vez em Black Mirror, quase cochilei na metade. O episódio trata de um futuro apocalíptico onde os poucos humanos que restaram são caçados por espécies de cães-robôs. Visualmente é deslumbrante, preto e branco a expressão da protagonista. Mas o enredo é cansativo, são poucas falas e uma fuga muitas vezes previsível. O desfecho é quase um alívio e ainda mostra o motivo da fuga toda e você fica meio tipo: sério, gente? Não foi um episódio que amei assistir, diria que é ok.

Fechar com chave de ouro é uma expressão clichê que não consigo deixar de usar e quando o assunto “Black Museum”, a season finale da quarta temporada, a expressão ~usando uma pronta de novo~ cai como uma luva.
O episódio é um retrato fiel do que é Black Mirror em sua essência, dividido em três histórias enlaçadas com a tecnologia. O enredo nos engana no começo e nos envolve em história quase aterrorizantes, reunindo diferentes universos e como próprio nome sugere, as bizarrices estão reunidas em um museu (falido) pra exibição. Aqui temos a crítica ferrenha da busca por prazer incessante, o sadismo, vingança, crueldade, senso de justiça… É uma salada lições. Enfim, um baita episódio que encerra a season em grande estilo. 5 estrelinhas fácil!
Vale lembrar que existem referências a TODOS os episódios de Black Mirror nesse em particular, manda pra gente as que você encontrar!

 

“Monkey Loves You” or “Monkey Needs a Hug”?

chovem críticas à temporada dizendo que ela não conseguiu manter o nível de Black Mirror. Será que não mesmo?
Vamo voltar lá na primeira temporada: todos os episódios foam 10/10? Não. E na outras temporadas? Não. Episódios incríveis intercalados com histórias “ok” exatamente como foi essa temporada.

Lembrando que a magia de Black Mirror é como ela afeta cada um de nós dependendo da relação afetiva que temos com cada história. Se você tem uma história tensa que envolve privacidade, tende-se a conectar mais com episódios dessa temática – ou não também. Não existe uma regra e especialmente em Black Mirror que tem em seu cerne o gene diferentão.

Assim que terminei de assistir, impactadíssima por “Black Museum” achei que ele era o episódio central e superior da temporada toda. Aí fui refletir friamente, li umas críticas ferrenhas, umas em cima do muro e elogios cegos também. Daí fui lembrar das temporadas anteriores e de como eu me conecto com a história, lembrando que isso é o mais importante. Então pra mim a temporada mantém o nível e continua muito Black Mirror pelo fato de ter sim histórias de deixar a gente embasbacado além dos recheios mais ou menos. Talvez a gente tenha se acostumado com o jeito de Brooker contar as histórias ou só estamos dando valor demais à críticas alheias ~sendo influenciados do jeitinho que Black Mirror gosta.

No fim das contas, quarta temporada: Monkey Loves You.

Aqui tem estampas muito Black Mirror.