Dia Mundial da Fotografia: quem fotografa sua Chico Rei?

Trezentas e trinta e três mil e dezoito.

Esse era o número de fotos tiradas por João Schubert em seus treze anos de Chico Rei, em contagem feita na manhã do dia 19 de agosto de 2019.

Sim, ele conta. E, para desespero da nossa equipe de TI, que não aguenta mais fazer upgrades de disco rígido, tem tudo meticulosamente organizado em uma pasta.

Faz três meses que sopramos as velinhas do décimo primeiro aniversário da empresa. O João trabalha por aqui desde quando a Chico Rei ainda nem era propriamente a Chico Rei!

Ele e o nosso fundador se conheceram em meados de 2006. Já fotógrafo, fazia algumas coberturas de eventos para a empresa em que o Bruno estagiava, o Zine Cultural.

Naqueles tempos, o compartilhamento de arquivos em nuvem ainda não era tão popular. E como as fotos eram grandes demais para caberem em e-mails, João as levava em um pen drive para a sede do Zine. Nessas idas, sempre acabava trocando uma ideia ou outra com o Bruno.

Eis que, num dia de sol, calor, chuva, vento, frio, põe-casaco e tira-casaco, como acontece 365 ou 366 vezes por ano em Juiz de Fora, Bruno liga; diz que tinha feito umas camisetas e que precisava de umas fotos. Schubert topa.

O resto é história.

Neste 19 de agosto, Dia Mundial da Fotografia, te apresentamos o profissional responsável por fotografar suas camisetas!


Prazer, João Schubert.

Existe nas câmeras um pequeno dispositivo chamado obturador.

Abrindo e fechando, ele controla o tempo de exposição do equipamento à luz, em movimento parecido com o das janelas, sejam as de casa ou as da alma.

O tempo de exposição, também chamado de velocidade do obturador, é medido em segundos ou em frações destes. Geralmente, coisa muito rápida, mais que um flash. Pensando por esse caminho, talvez o famoso super-herói da DC Comics tivesse alternativa mais fiel de batismo: Shutter (significante da língua inglesa para obturador).

O soteropolitano João (Shutter) Schubert vivia em Rio Claro (SP) aos três anos de idade. Ele não sabia que a paixão da sua vida surgiria em uma simples visita, com o pai, à casa de um amigo.

Por lá chegando, o filho mais velho do tal sujeito ofereceu um carrinho com o qual não brincava mais. “O menino disse que era do Nelson Piquet, mas não era”, conta um desapontado João. Era um carrinho estilo passeio, com o motor saindo do capô, do tipo blower.

Começou ali a gostar do Piquet. Logo depois, veio Senna e o país virou uma loucura: “Era uma lenda viva, foi uma coisa muito forte para todo mundo. E solidificou a minha paixão”. O fotógrafo é completamente alucinado por velocidade. Talvez, por isso, goste de trabalhar tão próximo aos obturadores - e flashes.

Foi a todos os Grandes Prêmios do Brasil de Fórmula 1 desde o ano de 1995. Naquela edição, levou uma pequena câmera do pai, uma Olympus Trip. Fez vários cliques bombásticos e, após a revelação, nada apareceu.

A câmera até que era boa. O problema era o piloto, que pensou: “Preciso aprender a tirar retrato”.

No ano seguinte, com uma nova companheira em mãos e algum conhecimento adquirido, retornou a Interlagos. Sob chuva, viu, a olhos nus e pelo visor, o inglês Damon Hill rir por último e subir ao posto mais alto do pódio. As fotos ficaram maravilhosas: “Levei o material para o PC Magella e disse que gostaria de retornar ao GP no ano seguinte, mas com uma credencial”.

PC é e era, já naquela época, o editor geral do jornal Tribuna de Minas, periódico municipal de maior circulação de Juiz de Fora. A credencial acabou não rolando, mas a conversa abriu a porta para sua entrada no jornal, alguns anos depois. Por culpa das corridas, o hobby acabaria virando profissão.

Nosso glorioso João marcando presença no 1996 IndyCar Rio 400.

João se formou em Comunicação Social. Estagiou na Folha de São Paulo e, além da Tribuna, passou por vários outros veículos da cidade, como o Jornal Panorama, o JF Hoje e o já citado Zine Cultural. Trabalhou também em colunas sociais. Foi para Belo Horizonte fotografar para o Estado de Minas e para o Rio de Janeiro cobrir um dos maiores e mais tradicionais clubes de futebol do país e do mundo, o Botafogo de Futebol e Regatas (sem clubismo algum por parte de quem vos escreve). Já presenciou tiroteio, já fugiu de gente que queria bater nele por ter feito foto…

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Fotografia muda o mundo

Uma verdade que odiamos admitir: João Schubert é o melhor piloto de kart da Chico Rei. Quando perde um dos Grande Prêmios internos, o cabra fica bravo. “Foi a chuva”, “meu kart tava com problema” e “não usei pneu de chuva” são algumas das justificativas mais ouvidas.

Schubão com seu brinquedo favorito.

Muito ouvido por aqui, também, é o toque de seu celular, a faixa Bete Balanço. Assim como as diferentes desculpas para não atender ao interfone no dia da semana em que, no rodízio, a responsabilidade é da galera da mesa dele.

Zoações à parte, João diz que trabalha no melhor lugar que pode existir, onde fica 100% à vontade e é plenamente satisfeito com a rotina.

Fotografa tudo que precisa, até mesmo determinada pecinha que estraga em uma porta e que precisa ser reposta para que a empresa continue funcionando propriamente. “A Chico Rei é um negócio de camisetas que é midiático. Somos formadores de opinião, pelo volume de clientes e de seguidores em redes sociais que temos. Então demanda uma quantidade de imagens grande”, explica.

Além de tirar, seleciona as fotos: “A gente tem muito volume de pautas, mas não tem muito espaço. Acaba que fazemos cerca de cem ou duzentas fotos, em média, em um ensaio. E acabamos usando apenas umas três”.

Com a alta demanda por imagens, ele já chegou a “zerar” duas câmeras. O prazo de validade de uma câmera, geralmente, é quando seu obturador se cansa da rotina de abrir e fechar - e estraga. Varia de modelo para modelo, mas, para que isso aconteça, milhares e milhares de cliques são necessários. E aí existe a opção de trocar a peça e continuar utilizando o equipamento.

Seus trabalhos favoritos na Chico Rei são, em sua maioria, mais recentes. João tem a consciência de que vem melhorando e crescendo com o passar do tempo, não apenas como profissional. Ele se sente uma pessoa melhor hoje, após anos de empresa, e considera a experiência por aqui enriquecedora.

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As favoritas

Precursora
“Foi a primeira foto de todas! Ainda não tínhamos ideia do que estávamos fazendo, mas fizemos. E deu certo. Estava fotografando as meninas e um senhor simplesmente entrou no meio. Acabou que ele fez parte da imagem”.

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Amigo de lenda, lenda é
“Fotografar o Milton Nascimento foi muito emocionante. Até pela questão de eu ser muito fã do Senna e de o Milton ter sido amigo pessoal dele. Além do tamanho todo dele na música. Foi uma pessoa que gostei muito de ter conhecido. Me emocionou! E o resultado do ensaio foi muito satisfatório”.

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Neve
“Essa foi da modelo Isadora Woyames. Foi no teste, ainda não estava valendo!”.

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Outras fotos memoráveis:

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Fotografia de moda

Filho do fotojornalismo diário, nosso personagem agradece pelos saberes adquiridos em suas experiências anteriores. Levou para a fotografia de moda o feeling do momento ideal do clique: “Existe a hora certa de fazer. O fotojornalismo diário é uma escola que todos deveriam frequentar. Você aprende a lidar, principalmente, com o risco de perder uma foto”.

No ofício atual, João destaca a simbiose entre a equipe como peça fundamental para um bom resultado final. “Tem que haver um casamento de todos: fotógrafo, produtora, maquiadora, modelos… E isso não é fácil. Fazemos fotos de gente, de pessoas. Elas dependem de bem estar, de todos estarem à vontade”, observa.

Sobre a técnica peculiar ao ofício, nosso fotógrafo explica que cada ensaio é diferente do outro, e que isso muda tudo. Os catálogos vendem os conceitos das camisetas Chico Rei. Por isso, proposta, iluminação, ambiente, cenário, modelos e maquiagem nunca são os mesmos - e nem devem ser.

Essas mudanças constantes exigem domínio total do equipamento. A questão-chave é ter a ideia e saber executá-la. Mesmo encarando o fato de que “depois da câmera digital, todo mundo virou fotógrafo”, Schubert vê como diferencial a capacidade de saber fazer a transição cabeça-tela: “Ninguém se transforma em fotógrafo quando compra uma câmera digital. A pessoa se torna um fotógrafo quando as outras pessoas a chamam de fotógrafo. E isso demora um tempo”.

Para quem deseja desbravar o mercado, paciência e perseverança são suas maiores dicas: “Hoje em dia, infelizmente, o início é muito difícil. Quem começa trabalha de graça. Já perdi trabalhos de anos em empresas para pessoas que aceitaram ‘receber’ apenas os créditos das fotos como pagamento. Mas não acho que seja a forma correta de começar. Tem que ser metendo a cara. Ninguém começa com qualidade técnica apurada. Tem que ir com humildade” - SCHUBERT, 2019.

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Colecionador ou acumulador?

Falamos da velocidade e da fotografia. Mas existe uma terceira paixão na jogada, que acaba sendo complementar às duas outras.

“Sou um acumulador” - ainda bem que ele sabe.

João tem cerca de vinte câmeras. Gosta de qualquer objeto em abundância. Se gosta de um copo, compra logo cinco dele. Tem tudo repetido: “Acho que é doença, né?”. Será?

Tudo começou com os icônicos soldadinhos Comandos em Ação, existentes nos mais variados modelos. “O médico vinha com uma maca, cara! É uma maca!”, exclama, animado, e segue: “Minha infância foi baseada em Comandos em Ação, em ter um exército de bonecos. Todo mundo brincava! Quanto mais bonecos você tinha, melhor você seria”.

Ao longo dos anos, naturalmente, os colecionáveis foram mudando. Hoje, tem muitos itens relacionados ao automobilismo, alguns deles bem raros: “As pessoas vivem me perguntando por que eu tenho um pneu. Eu respondo que tenho sete! As coisas usadas em esportes me encantam, principalmente as de corridas. Se aparecer um parafuso na minha frente, eu quero”. Se liga numa parte da coleção do Schubert:

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Filósofo e profeta

Durante nossa conversa, duas frases dignas de nota surgiram. Seguem:

Você pode ter a melhor câmera do mundo, mas se não souber o que estiver fazendo, não vai sair nada. O cara que sabe o que tá fazendo faz o ensaio até com um celular.

Hoje em dia, na fotografia, o bonito é o que é tosco, granulado, poluído. É uma coisa sazonal. É igual moda: voltou até a pochete! Daqui a pouco volta o mullet…

Só esperamos que o João não adote a ideia de usar mullets, caso a profecia se concretize...

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Se quiser ver outros trabalhos do fotógrafo oficial da Chico Rei, você pode acessar seu Instagram. Em série recente, ele postou filmes de máquinas analógicas em situações aleatórias: em cima da comida, fazendo trilha de bicicleta, na janela do avião…

Enquanto você lia o texto, mais algumas centenas de fotos entraram naquela conta inicial. Esperamos que ela ainda cresça bastante e que muitos obturadores precisem ser trocados :)

Feliz Dia Mundial da Fotografia!