Mc Kevinho, Chico Science e a higienização da música brasileira.

No dia 23/08/2017, o jornalista Chico Barney fez uma comparação entre o Mc Kevinho, funkeiro paulista, com o cantor e compositor pernambucano Chico Science em um artigo para o site UOL. O artigo pode ser encontrado nesse link aqui.**


O artigo, muito bem escrito, foi amplamente criticado por argumentos muito complicados, como:

*“Comparar esse lixo a Chico Science??? Só podem estar de sacanagem!”


“Só LIXO!!! Axé, funk e sertanejo!”

**“Essa matéria foi o maior e o pior lixo que já li em toda a minha vida, horrível, mais respeito com os símbolos da cultura nordestina, colega jornalista. Quando não souber o que falar, menos é mais.”*

Não me cabe questionar os méritos aplicados, mas é bacana discutir alguns pontos:

Chico Science 11 – Quem foi Chico Science?

Francisco de Assis França, “Chico Science”. Passou a infância no bairro recifense Rio Doce. Na infância, catava caranguejos no mangue para vender na feira. Teve acesso a algumas ONG’s que trabalhavam com educação popular quando criança. Em 1991, conheceu o “Lamento Negro”,  grupo que desenvolvia trabalhos solidários na periferia do Recife e onde começou a trabalhar como educador.

Durante o processo da formação de seu estilo, faz o seguinte relato a amigos num bar: “Fiz uma jam session com o Lamento Negro, aquele grupo de samba-reggae. Peguei um ritmo de hip-hop e joguei no tambor de maracatu… Vou chamar essa mistura de mangue!”. **

O mangue, no sentido original da palavra, é um fértil ecossistema que sofre com a degradação advinda da desordem ocupacional do Recife. A mistura fértil de sons, de Chico Science, em conjunto com a segregação de algumas músicas em detrimento do predadorismo de outras, transformam o nome em uma escolha perfeita.

Alguns pedaços das letras:

E com o bucho mais cheio comecei a pensar
**Que eu me organizando posso desorganizar”


“Em cada morro uma história diferente
Que a polícia mata gente inocente
E quem era inocente hoje já virou bandido
Pra poder comer um pedaço de pão todo fudido
Banditismo por pura maldade
Banditismo por necessidade
Banditismo por uma questão de classe”**

“Tu só quer ficar na minha
Porque eu tô de mão cheia
Olha só que menina bonitinha
Pra poder ficar comigo
Tem que saber de cozinha”

chico science mc kevinho2 – Quem é Mc Kevinho?

Kevin Kawan de Azevedo, 18 anos. Nasceu em Campinas e começou a cantar oficialmente com 14 anos de idade. Hoje em dia tem dois empresários e faz parte de umas das maiores produtoras do estado de São Paulo.

MC Kevinho vem colhendo os frutos do seu trabalho. A cada dia que passa sua agenda de shows cresce e o jovem garoto quebra barreiras com seu talento. Chama atenção por onde passa, misturando estilos e propostas diferentes com o seu bordão, “Cê acredita?”. Kevin Kawan vem de uma família pobre e já deixou claro em algumas entrevistas que o funk era sua válvula de escape.

Alguns trechos de letras:

Hoje eu to pesado de ostentação
Eu tô de mizuno e to com vários cordão
A mil esquenta na garage
Já tá pronta pra gira
O rolê com as novinha, eu vou pro Guarujá
**De ciroc absolut nois ta pesadão”


“Cabelo longo ao vento
Troca sentimento por sensação
Faz pose pra foto, tirando onda
Esqueceu quem feriu o coração”


“Nem passou o grau, ela quer rebater
Já anda chamando a ressaca de rê
Solteira, ela comanda as amigas da zoeira
E já que ela tá me olhando a noite inteira
Kevin vem, Kevin vem”

3 – Por que axé, funk e sertanejo são vistos como “menores”?

Antes de iniciar esse item é importante pontuar: vivemos em uma sociedade dividida por classes. Não porque eu quero, ou porque você quer, mas porque nunca soubemos como desfazer essa loucura chamada de divisão de classes. E sim, é em tudo. Da roupa que usamos ao lugar que moramos. Do que comemos ao que aprendemos, e por aí vai… Tudo passa pelo filtro da classe social, até porque vivemos no capitalismo. Essas classes são flutuantes, de modo difícil, mas flutuantes, e quanto mais grana você tem, maior é considerada sua classe social.

O axé, o funk e o sertanejo iniciaram suas histórias nas camadas mais marginalizadas. Surgiram no carnaval de rua da Bahia, nas favelas cariocas e nos cantões rurais do Brasil. Esses estilos musicais, obviamente, têm tudo a ver com o ambiente em que foram desenvolvidos.

O** romantismo exacerbado**, as vozes anasaladas, os falsetes e a viola, seguem o tema bucólico da vida no campo. O sexo, as drogas, o anseio e a realização pessoal com o poderio, a subjugação, entre outros, também têm muito a ver com as situações e relações que acontecem dentro das favelas cariocas, um mundo completamente a parte. O axé nasceu do carnaval de rua baiano, usa as figuras de linguagem para tocar em assuntos sexuais, com danças rápidas e coreografadas, muito baseadas nas danças africanas.

O funk carioca, por exemplo, sempre foi visto como um ritmo marginal por boa parte da mídia e por vários segmentos da sociedade. Recentemente, tornou-se pública a ideia de um projeto de lei que visava enxergar o funk como um problema de segurança pública.

O funk é, antes de tudo, um reflexo da vida, vivência e identidade de milhões de jovens cariocas, sobretudo os que vivemsendo marginalizados pela sociedade. É visível que esse ritmo fomenta todo um processo de construção identitária, tanto relacionado com a etnicidade, quanto com relações de classe, como moradia e acesso. Esses preconceitos musicais, bem como os outros preconceitos aos menos favorecidos, estão diretamente relacionados às camadas que os consomem.

4 –  Onde mora a música boa?

Algumas pessoas dizem que não é bem o ritmo que determina a** qualidade**, mas algo mais relacionado às letras ou ao estilo de vida de quem a faz. Letras como:

Motley Crue – “She Goes Down”

Tradução:
“Eu amo meninas do sul
Elas sabem como agradar
É como ligar os pontos
Comece embaixo, lamba até em cima
Ela desce
Ela desce
Desce, desce, desce”


**Arnaldo Antunes – **Essa mulher”

“Ela quer viver sozinha
sem a sua companhia
e você ainda quer essa mulher

Ela goza com o sabonete, não precisa de você
**Ela goza com a mão, não precisa do seu pau”


Existem muitas outras que tocam no assunto de forma figurada, ou com conotações menos “explícitas”, o que não muda o sentido problemático, apenas o mascara. Mas e se a gente trouxer isso pro nosso tema principal, Kevinho e Chico Science?

Bom, as letras do Chico Science são carregadas de discussões políticas, de** questionamentos e militância**. As do Kevinho bebem desse “misturalismo” do mangueboy, mas, ao mesmo tempo, têm letras super machistas, eróticas, sem nenhuma pretensão de levantar questões.

Isso é real e visível, não nego, mas como cobrar isso de algum cantor? Como esperar que ele levante bandeiras e se empodere de causas, quando nós mesmos observamos o quão caótica é toda essa vivência?

O funk fala da favela. Ele retorna pra gente todos esses pudores e tabus que fazemos questão de criar.** É um espelho que reflete o que a gente não quer ver**, que é exatamente a vida dessas pessoas. Por isso incomoda tanto!

Eu como mulher afirmo:** é machista sim. Muito, inclusive!** Mas é tão machista quanto a maioria das músicas, da maioria dos estilos musicais. Demonizar só o funk é preconceituoso e insuficiente.

Gosto é gosto. Você poder ter empatia e vontade de ouvir o que quiser, o importante é avaliar e pensar que tudo o que você faz ou pensa, passa pela sua vivência e espaço. Parar pra pensar e entender de onde vêm esses “gostos” ou “desgostos” é que é o pulo do gato.

chico science5 –  Mente aberta, corpo são

Nossa** linguagem está em constante evolução**. A língua é viva e as formas de nos comunicarmos também, modificando-se ano após ano, adequando-se sempre à melhor forma de entendimento.

Sotaques, regionalismos, gírias… Tudo é parte dessa evolução. Sabe-se também que ela é muito mais rápida longe de centros acadêmicos, em lugares em que se estuda pouco, mas existem menos amarras sociais ou regras muito rígidas sobre a forma de falar. Nesses lugares, as modificações são mais livres e liberdade de fala corre solta.

**E se aplicarmos isso na música? **

Bom, é exatamente o que acontece. A música que nasce distante da cultura musical dita “erudita”, corre sem amarras. Livre, experimentando coisas e se direcionando pra onde for mais interessante.

É isso, espero que gostem e que possamos continuar o papo pela redes. Beijos!