Por mais meninas e mulheres na Ciência!

O Meninas e Mulheres na Ciência foi criado em março de 2018 por Fernanda Furtado, graduada em Geologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O projeto tem como objetivo incentivar meninas a se interessarem por Ciência, fomentar o debate sobre a desigualdade de gênero no setor e discutir formas de reverter esse quadro. Anualmente, o grupo realiza a Semana de Meninas e Mulheres na Ciência. De forma contínua, promove, ao longo do ano, visitações em escolas com roda de conversa levando profissionais mulheres de diversas áreas. Batemos um papo com as principais lideranças do Meninas e Mulheres na Ciência para entender o trabalho realizado pelo grupo e você confere a conversa aqui. Antes de tudo, uma apresentação dessa turma:

Fernanda Campos Furtado é fundadora do projeto e geóloga formada pela UERJ com sanduíche pela California State University. Trabalha na área de petróleo e gás desde 2016, e atualmente está na França fazendo mestrado em Geociências do Petróleo no Instituto Francês do Petróleo (IFP) patrocinada pela empresa norueguesa Equinor. O IFP é a quinta maior universidade de petróleo e gás do mundo.

Gabriela Elias é graduanda em Química pela UFRJ, aluna de Iniciação Científica na FIOCRUZ em Farmanguinhos e desenvolve pesquisa  sobre Síntese Orgânica de Fármacos e Bioativos para doenças negligenciadas. Já trabalhou com tuberculose e atualmente faz parte de em um projeto de moléculas voltado para leishmaniose.

Natália Righetto Valente é graduanda em Engenharia de Produção, técnica em edificações, co-fundadora do grupo de pesquisa em automação e robótica pela Universidade Veiga de Almeida, faz parte do grupo de pesquisa de medicina integrada à engenharia e é monitora no curso de medicina com simulação em manequins de alta fidelidade.

Rachel Rodrigues Lopes é estagiária na equipe de Sísmica na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e ex-monitora de Paleontologia.

Qual é a importância de um movimento como esse para que mais meninas enxerguem a importância/necessidade e viabilidade de fazer ciência?

Meninas e Mulheres na Ciência: Sempre gostamos de destacar que o maior objetivo do nosso projeto é fazer com que meninas saibam que elas podem ser o que quiserem. Se depois de nossos eventos poucas quiserem fazer ciência, tudo bem, mas se elas saírem de lá acreditando em si mesmas, nossa missão será cumprida.

Nós queremos apresentar o exemplo de mulheres inspiradoras, pois mulheres cientistas também merecem e precisam de visibilidade. Precisamos mudar a visão do que é ser um cientista. Queremos colocar os holofotes nessas mulheres incríveis que são escondidas pela história.

Por fim, queremos mostrar que ciência é interessante e fundamental para a sociedade, não é só aquela fórmula no quadro, por isso fazemos oficinas de ciências com experimentos práticos para incentivá-las a gostarem de ciências.

Qual é a proporção entre homens e mulheres fazendo ciência no Brasil hoje?

Apesar de sermos maioria no ensino superior no Brasil, isso não é bem distribuído. Nos bacharelados em ciências, mulheres são cerca de 40% (o que engloba muitas carreiras) e nas engenharias, menos de 30%. Esse quadro se afunila ainda mais quando falamos de mestrados e doutorados. Além disso, somos maioria nas desistências nessas áreas também. No final, dos empregados no setor, somos apenas 17%.

Que cientistas mulheres inspiram o grupo?

Existem muitas e algumas delas já tivemos a oportunidade de conhecer pessoalmente e participaram de nossas atividades. Mas vou citar duas que amamos: Sônia Guimarães, física e primeira mulher negra do ITA, e Sylvia dos Anjos, uma das primeiras geólogas da Petrobras que hoje gerencia projetos do pré-sal.

Qual é a importância das mulheres na Ciência para encontrarem soluções e alternativas para problemas/questões que são femininas?

Os cientistas só podem resolver os problemas que eles enxergam e encontrar soluções em lugares que fazem parte de suas realidades. Por isso a diversidade na ciência é fundamental, pois sem diferentes olhares para diferentes problemas não existe inovação, não existe ciência acessível.

Quais são as principais dificuldades que as mulheres cientistas encontram no Brasil hoje?

O Brasil é um país machista, então podemos apontar o preconceito como principal dificuldade e a raiz de muitas questões. Mas aqui o buraco é mais embaixo em vários aspectos. As mulheres já são minoria nessas áreas científicas, então quando existem cortes na ciência, algo que anda sendo constante no Brasil, somos muito afetadas. Muitas cientistas estão perdendo bolsas de pesquisas, ou saindo do país por falta de oportunidade e de valorização aqui. Na maioria dos países desenvolvidos, a educação e ciência são prioridades até em tempos de crise, pois país nenhum cresce eliminando tais investimentos. Todo cientista sabe disso e nesse setor o clima de desesperança está imperando.

Além disso, cientistas são cobradas a produzir em todas as fases da vida como se não possuíssem uma vida pessoal também, então a maternidade, que é um processo normal da vida de muitas mulheres, se torna um fardo para a mulher cientista em nosso país.

Que retorno bacana por parte de meninas e mulheres vocês já tiveram com o trabalho do grupo?

O maior retorno que recebemos é o das meninas que saem encantadas nos nossos eventos. Muitas chegam dizendo não gostar de ciências e mudam de ideia rapidamente quando participam das nossas oficinas e assistem a uma mulher cientista falando. Ver o brilho nos olhos delas durante nossas atividades é o maior retorno que podemos ter.