A insustentável leveza do tem que se fudê prá aprendê!

“As melhores práticas para sua Reprogramação Mental – Ligue agora e agende uma consulta com nossos Benfeitores!” Reprogramação Mental! Sente o quão pesado é o termo? Parece pinçado da mais POP das epopeias retro-futuristas: Laranja Mecânica, onde o jovem Alex, na cadeia, é submetido a um experimento de engenharia social, regado a drogas e hipnose, com resultados catastróficos! O que não significa ser a tal Reprogramação Mental desastrosa (essa marca de camisetas aí poderia re-re-reeditar a ClockWork Banana, né!?!).   

Antecipando-se às críticas, façamos mea culpa: nada aqui se sabe sobre Reprogramação Mental, além do que foi visto num comercial de TV. Reiterando, atemo-nos ao peso da terminologia e não à técnica em si. E porque usar “Nossos Benfeitores” em vez de “Nossos Profissionais”? Benfeitores é tão messiânico/charlatão. É tão… Arapuca para capturar corações partidos, laçar espíritos doloridos, fisgar cérebros combalidos – todos com alguma segurança nos bolsos, dispostos a comprar soluções para as chapuletadas que a vida nos dá.  

Mas sabes o que é vida? É um clichê horroroso “No Pain, No Gain” tatuado no braço. À revelia da falta de criatividade, a eficiência do chavão é mesmo espantosa, porque de fato “não há vitória sem dor”. Trazendo para cotidiano desse atrevido Escriba, traduzimos o dito clichê à “tem que se fudê prá aprendê”! É preciso ver beleza nesse processo, porque sabes o que é a vida? É uma final de Libertadores do Galo! É beirar a loucura estudando para Concursos! É trabalhar como Jornalista 12 horas por dia em São Paulo, sabendo que não estão depositando seu FGTS (e nem falavam em votar a reforma da Previdência/Trabalhista!).

A vida? É pênalti defendido com o pé esquerdo aos 47 do 2° tempo. É mandar bebericar pelo ânus os que o taxam débil por se demitir para estudar, quando seu nome sai APROVADO no Diário Oficial. É assistir “Quase Famosos”, acreditar que é possível, morar sem grana num MOTEL em Sampa e, em seis meses, assinar uma matéria na “Pedras Rolando”. É adorável ouvir no trampo: “dois meses num MOTEL e ainda não comeu ninguém, kkk!”. A vida? É depois disso continuar a ser taxado psicopata, por não parar de galopar nos sonhos. Dessa vez “louco” por escrever uma literatura sanguinolenta, quando aconselhavam produzir Autoajuda. “É mais vendável”, diziam. Resultado: o livro maldito encontrou nicho, angariando fatia órfão no mercado, cimentando caminho para o próximo.

E se o nobríssimo leitor achas que esse texto é pura rasgação de seda, com vômitos ególatras respingando na tela… É! De certa forma não deixa de ser! Mas saibam que, em prol dos sonhos, o mesmo Escriba traça uma lista, incluindo desprezo, assédio moral, desilusão profissional, coração destroçado, depressão e por aí vai. Tudo temperado com orgulhosas lágrimas de quem só queria viver. E hoje? Sim! Tragam Psicólogos, Terapeutas, Coaches e até mesmo os Benfeitores da famigerada Reprogramação Mental.

Só para registro, o Escriba trava benévolas guerras às terças, no divã de seu Analista, que insiste com o paciente: “dá infância aos recentes dilemas, não torça o nariz a sua construção, PORRA!”. Lê-se nos olhos o quão grato é o Analista, pelo Escriba o ter procurado na hora certa – não tendo antes usado KY’s, Vaselinas e outras soluções psico-mercadológicas para amenizar a dor e a beleza do existir. Isso na metade da sessão. O restante da terapia é para convencer o cliente a não tatuar o tema do Coaching que, em breve, pretende ministrar: “Quer se fudê prá aprendê? Pergunte-me como!?!”.        

Tiago Santos-Vieira

Sobre o Escriba:  

Crônica por Crônica por Tiago Santos-Vieira

Nascido na mitológica Caratinga (MG),  o atleticano fez implicitamente voto de pobreza ao optar pelo jornalismo, na UFJF – MG. Da miséria, passou à escravidão voluntária, trabalhando com periódicos em São Paulo. Foi seu lapso temporal mais produtivo, com publicações na Rolling Stone, Trip/TPM, Riders, Diário de Guarulhos… Esse ciclo se fechou, depois de ter identificado o jornalismo como um extravaso a sua paixão pelas letras. Voltou então à Terra do Nunca, vulgo Caratinga, passando um ano trancafiado num quarto escuro. Quando viu a luz, fora aprovado em um concurso público e estava grávido de um livro. Foi então morar em Brasília, onde, após uma sanguinolenta gestação, pariu Elos do Mau Agouro (Giostri Editora). Torna agora à Juiz de Fora, grávido de Girassol de Fel!

  • Paula Castro

    Genial! Adorei o texto, o estilo. Obrigada Chico Rei por apresentar um escritor tão autêntico. Quero o(s) livros 😀