Chico Rei Opina: review de Game Of Thrones Series Finale

Eu demorei semanas pra absorver o final de Game Of Thrones. Durante muitos dias me peguei olhando para o título da crítica e não tinha nada, NA-DA mesmo pra escrever. Finalmente o tempo do impacto passou e já dá pra pensar racionalmente.


Nem sei se ainda existe spoiler a essa altura do campeonato, mas fica o aviso. Um último sofrimento tardio sobre essa série.

Drama pós-apocalíptico

Após o surto anterior de Daenerys, seus ainda aliados andam pela cidade absorvendo os estragos. Tyrion e Jon Snow se mostram consternados, o jovem percebe que o anão não tem intenção de continuar servindo à rainha e o alerta, mas nada impede Tyrion.

Há um encontro entre Jon e Verme Cinzento onde eles discordam acerca do destino dos soldados Lannister rendidos. Sor Davos intervém, mas mesmo assim cabeças rolam e o Snow fica ainda mais enojado com a situação.

Dany discursa para seus exércitos parafraseando ela mesma e Khal Drogo de temporadas anteriores. Vemos os vencedores inflamados pelas palavras e sentimos que Westeros talvez seja só o começo das conquistas de Daenerys e seu dragão. E é nesse momento que Tyrion aparece e julga os atos de sua rainha. Ele acaba preso pela traição e renúncia. Por que Daenerys não o queimou ali mesmo em praça pública? Nunca saberemos.

Arya e Jon se encontram (percebemos que ele realmente não sabia que a garota estava em Porto Real), a garota alerta o "irmão" de que ele sempre será uma ameaça a Daenerys por sua ascendência Targaryen. Jon decide ir atrás da amada mesmo assim. Mas antes, faz uma parada na cela de Tyrion para uma conversa bem complexa.

Essa foi uma cena que pareceu ter pequenos grandes problemas. A relação entre Tyrion e Jon sempre foi admirável, desde as frases de efeito trocadas na primeira temporada (quando éramos felizes e não sabíamos) até o início da temporada derradeira. O anão nunca desiste de convencer as pessoas a fazerem o que ele acha certo, claro que em suas últimas horas isso não seria diferente.

No papo, nosso Lannister favorito tenta convencer Snow da ameaça que Daenerys se tornou e o lobinho se emociona, não consegue renegar a cega lealdade por amor que segue alimentando. Vemos que ainda assim, há uma luzinha de lucidez em Jon quando ele sai rumo à sala do trono.

Rainha das Cinzas

Minha gente, quanta indignação cabe em um parágrafo? Imagine toda ela aqui. Pra mim, o maior problema nem foi Jon Snow assassinar Daenerys, essa forçação estava sendo construída há séculos, mas tudo que girou em volta disso.

Após as crueldades da batalha, do discurso que a rainha fez em frente a seus exércitos, esperávamos uma outra postura de Daenerys. Mas a antiga fragilidade e insegurança que os roteiristas nos fizeram crer que levaram Dany a perder a cabeça, continuavam ali. Uma jovem sonhadora implorando por uma última gota de amor. Vemos que Jon não a renega nem em seu último momento decisivo, diz que a moça será sua eterna rainha.

Em uma cena de novela mexicana, Jon beija a amada enquanto crava uma adaga em seu coração. Nesse fatídico momento, Drogon entra em cena e tem seu minuto de luto com a mãe e decide levá-la pelos ares. Eu gosto de criar a fanfic na minha mente de que ele levou Dany para Valyria e lá ela renasceu do fogo e se tornou a rainha de um novo império. Fim.

Devaneios à parte, antes de partir, o dragão derrete o Trono de Ferro e deixa Jon Snow ileso. Não faz o menor sentido ele assimilar a moça morta ali e não eliminar a ameaça que é Snow naquele cenário. O derretimento do trono é poético e seria muito significativo se os acontecimentos que se seguissem fossem, na prática, uma ruptura expressiva no sistema de Westeros, como a própria Daenerys sugeria. Só que o que vimos foi uma confusão organizada por poucas pessoas que decidiram por puro juízo de valor e pouco embasamento político. Falaremos em breve.

Precisamos falar sobre Daenerys. Bem, já falamos bastante nas críticas anteriores. Espero que Martin nos entregue um final de trajetória com mais sentido do que vimos na série. A incoerência dos últimos atos da eterna khalessi não me descem a garganta. A cena final de Dany pra mim será a do final da sexta temporada, quando ela vai em direção a Westeros com exércitos e dragões.

Exércitos em luto

Pois bem. Jon assassinou a rainha e se tornou o mais novo queenslayer do pedaço. Ele poderia ter mentido que Dany fugiu montada em Drogon, ou que viu outra pessoa matá-la, mas chegou tarde demais. Enfim! Não houve corpo, mas o honrado Jon jamais mentiria, não é mesmo?

A série nos mostra que os exércitos da rainha descobriram a traição de Snow e o prenderam. Pois é, eles controlam a cidade e não abateram imediatamente o homem que matou sua rainha. E fica pior.

Tyrion continua como prisioneiro desse exército e o capitão Verme Cinzento não só permite uma reunião dos principais lordes de Westeros, como permite que a ex-mão  traíra da rainha praticamente dite as regras do encontro. SÓ RESPIRANDO MUITO FUNDO PRA ENGOLIR!

Sim, eles se reúnem e Lorde Tyrion sugere que esqueçam as questões de linhagem e que os próprios lordes escolham o novo rei ou rainha de Westeros. Pois bem, Verme Cinzento "permite" que eles façam essa pequena eleição. Pausa cômica pra o desaparecido Edmure Tully que inicia um discurso e é silenciado com uma frase e um olhar dela, Sansa Stark.

Bran, o Quebrado

Na sequência, Tyrion e suas correntes começam uma campanha enfática por ele, Brandon Stark. Eu poderia ficar durante meses a fio enumerando incoerências, mas vou para uma listinha breve.

  1. Desde que retornou das Terras de Sempre Inverno, Brandon renunciou aos títulos como Stark e se nomeou Corvo de Três Olhos. Abriu mão de ser Lorde de Winterfell alegando ser outra pessoa agora. Praticamente um semideus.
  2. Segundo ele, não deseja nada, vive apenas no passado. É uma entidade à parte que não pode interferir tanto nos acontecimentos históricos de Westeros.
  3. Fez um fuzuê danado para revelar que Jon Snow era Aegon Targaryen para quê? No fim das contas não fez a menor diferença.
  4. A argumentação de Tyrion de que Bran seria um bom rei se dá pelo fato de que ele vê tudo? Que experiência de governo, política, liderança ou sequer convívio o garoto tem?
  5. Dos lordes convidados, vemos um desacerto de escolhas. Se haviam casas menores ali - como a de Brienne e o próprio Davos - por que a reação absurda quando Sam aponta a ideia democrática de todo o povo votar?
  6. O único fato que impediu Jon (o herdeiro real) de estar ali foi ele ser prisioneiro dos exércitos de Dany. Então, por que eles não o soltaram e colocaram no trono no segundo em que o navio de Verme Cinzento zarpou para Naath?
  7. Após o personagem renegar tudo, renegar quem é e outras mil questões que o distanciavam da posição de poder que ele poderia ocupar por ter a "visão", ele chega na reunião e fala: "É por isso que eu vim até aqui." MANO??? Que série os roteiristas assistiram até aqui? Não foi a mesma que nós, certamente.

Essa lista continuaria para sempre, porém, sem tempo, irmão.

Aegon, quem?

Pois é, aquele carnaval sobre Jon ser um Targaryen filho de Rhaegar e Lyanna Stark pra quê? NADA! NA-DA! N-A-D-A! N A D A!

O cara protagonizou meia série, morreu, voltou, matou white walker até cansar, montou em dragão, fez o escambau e voltou exatamente para o ponto onde começou. É a jornada de herói mais mal traçada que eu já vi. Já li fanfics melhores do que esse plot sem clímax do Jon Snow. Personagem desperdiçado total, infelizmente.

Só isso a declarar.

Seis reinos e o Norte

Voltando rapidamente à reunião mais sem nexo que Westeros já viu. Eles convidam três Starks e ainda tinha alguma dúvida de que o rei seria dessa casa? Além disso, Brienne serve à Sansa, assim como Yohn Royce e Edmure é tio dos Stark. Sem falar em Davos, que serve ao Jon e não podemos esquecer de Samwell Tarly. ENFIM! Acho que já deu pra entender, né?

E sempre piora, gente. Sansa pede a independência do norte ao irmão, claro que Brandon cede. E seria tudo bem, mas o problema é quem ninguém se levanta e pede o mesmo. Nem Yara Greyjoy das Ilhas de Ferro que sempre tiveram essa questão fortemente atrelada à sua história e suas revoltas. Ninguém questiona, as pessoas só aceitam. Como assim???

Tirando esse fato estranho, fiquei super feliz por Sansa. Ela certamente saberá governar, teve prática e tem se mostrado boa no jogo dos tronos, salvo raríssimas exceções - excepcionalmente as que envolviam Daenerys e me deixaram com raiva. Inclusive, faria muito mais sentido Sansa no Trono de Ferro do que Bran. Ele poderia ser sua Mão ou Mestre dos Sussurros, já que sabe de tudo.

Falando em Stark, me agrada também o final de Arya. Independente, aventureira, desbravando o oeste como disse que desejava fazer. O mundo é seu!

A roda volta a girar

Depois de tudo que aconteceu para mudar o sistema e transformar Westeros em um mundo novo, eis que retornamos à famosa estaca zero.

Bronn por motivos desconhecidos se torna Mestre da Moeda (???), não vou me dignar a comentar os outros, a não ser Sam.

O cara desertou da Patrulha da Noite, não foi punido, voltou para casa, engravidou sua companheira, veio para o conselho sobre a decisão de nomear o rei, largou a família que estava construindo e sem estar formado na Cidadela se torna ninguém menos do que o Grand Meistre dos reinos. É tanto erro em um plot que eu não consigo nem discorrer muito sobre, sinceramente.

Parece que todas as alternativas de novo governo em Westeros que soavam mais plausíveis, foram desprezadas. Gostos pessoais à parte, D&D conseguiram sim surpreender no final; creio que poucas pessoas esperavam o garoto Bran no Trono de Ferro, especialmente depois de todos fatos que citei na listinha acima.

Veredito

Eu queria que Daenerys tivesse pelo menos sentado no trono uma vez, sabe? Passou o famoso filme pela minha cabeça quando essa mulher entrou na sala e nevava exatamente como em sua visão na Casa dos Imortais em Qarth.

Finalmente Jon Snow fez um carinho em Fantasma, talvez a única parte no episódio que tenha aquecido meu coração. Ver nosso sempre querido bastardo indo para lá da Muralha junto aos Selvagens causa feels.

Game Of Thrones encontrou seu tão esperado e agridoce fim. Eu diria que mais amargo do que o esperado e bem abaixo do que a série merecia. Ainda que George R. R. Martin nos conduza para esse mesmo desfecho, confio que ele nos envolverá em suas tramas sem furos e aceitaremos com a mente mais aberta as escolhas polêmicas do desenlace das Crônicas de Gelo e Fogo.

Foram quase dez anos acompanhando esses personagens. Arya é um exemplo de que uma vida se passou nesse meio tempo. A verdade é que nós, fãs, não sabemos mais como éramos antes de Game of Thrones, mas sabemos que existe vida pós queda da Muralha.

E mais! A HBO já está trabalhando seriamente nos spin offs que ajudarão a apagar o recente fiasco e matar as saudades do que um dia os Sete Reinos foram para nós. Sem falar que Martin anunciou o sexto livro da série - Os Vento do Inverno - para, no máximo, agosto de 2020. Vou pedir para o meteoro esperar mais um pouco.

E você? Também ficou a pura decepção ou aceitou melhor do que eu esse final?